Per speculum in ænigmate
“Por reflexo em enigma”
Hoje parece que a metafísica perdeu espaço para a ciência, parece que a filosofia tornou-se uma simples epistemologia científica. Será mesmo isso verdade? Toda nossa hera foi forjada com as forças da Revolução Industrial e sua mente filosófica positivista. Observamos também que a filosofia durante o século XIX serviu como “justificativa” aos atos científicos ou mera interpretação de uma “ciência deus”. Para dizer a verdade o homem se esqueceu da Metafísica e pendeu muito as inclinações Kantianas da razão.
Mais e a metafísica? O que é? Ela morreu no século XIX? William James definiu-a muito bem como “apenas um esforço extraordinário obstinado para pensar com clareza”. Ao contrário do que muitos haviam predeterminado, ela não morreu, apenas deu um tempo. A metafísica é um dos alicerces da filosofia; foi ela que indagou aos primeiros filósofos gregos a questão do Ser enquanto Ser. Parmênides foi um de seus precursores, com sua Lei da Contradição do ser, juntamente de Heráclito e sua transitoriedade, foram os dois primeiros a trazer a tona os problemas metafísicos, após estes vieram Platão e depois Aristóteles. O primeiro, procurando integrar o pensamento Heleata ao de Heráclito, criando assim uma conjuntura – uma união dos contrários – entre os dois présocraticos. O segundo – Aristóteles – traduzindo a lógica, e suas novas interpretações sobre o ser. Tudo fazendo parte de um esforço homérico na tentativa de definir o “além do mundo físico”, os “porquês” das coisas, físicas ou não, isto é a Metafísica; tornando-a cognoscível como ciência.
E o conhecer, de que se consiste? Desta questão apresenta-se a “realidade”; e a metafísica foi a primeira a tentar entender esse fato. Por incrível que pareça, em sua miséria, ela tem dado conta do recado, e ao mesmo tempo infernizado a ciência, a qual tenta de todas as formas negá-la, cada vez provando-a. Mas isso não responde nossa pergunta. O que constitui esse espaço que nós denominamos de realidade? Constitui-se de algo incognoscível, e intangível para a ciência. Por que sabemos – ou pensamos saber – do que o real é constituído. O que vemos, sentimos, cheiramos ou ouvimos nos parece sempre ser a realidade pura e nua. Entretanto não é bem assim, na verdade todos esses sentidos não passam de impressões criadas por nossa mente. Nada é o que mostra ser. O real, é mais que aparenta, mais que imagem, mais que essa coisa que se manifesta a minha frente, sólida ou não, ao qual eu posso medir ou calcular. Ai entra à metafísica, na tentativa de entender e evidenciar esse “ponto cego” da ciência.
Sobre essa “cegueira” humana e a incapacidade da ciência, até agora, em decifrá-la nos fala Bertrand Russell em Os problemas da filosofia:
... se qualquer outra pessoa normal entrar em meus aposentos verá as mesmas cadeiras, mesas, livros e papéis que eu vejo, e que a mesa que vejo é a mesma mesa que sinto pressionada contra meu braço. Tudo isso parece tão evidente que nem vale a pena ser mencionado, a não ser em resposta a quem duvide de que conheço alguma coisa. Não obstante, tudo isto pode ser posto em dúvida de um modo razoável, e requer em sua totalidade uma discussão muito cuidadosa antes que possamos estar seguros de que o expressamos de uma forma que é completamente verdadeira. [...] Podemos ver a olho nu as veias da madeira, mas ao mesmo tempo a mesa parece lisa e uniforme. Se a observássemos por intermédio de um microscópio veríamos saliências, relevos e depressões, e todo tipo de irregularidades que são imperceptíveis a olho nu. Qual é a mesa “real”? Temos, naturalmente, a tentação de dizer que a que vemos através do microscópio é mais real. Mas esta impressão mudaria, por sua vez, se utilizássemos um microscópio mais poderoso. Portanto, se não podemos confiar no que vemos a olho nu, por que deveríamos confiar no que vemos por intermédio de um microscópio? Assim, mais uma vez, a confiança inicial que tínhamos nos sentidos nos abandona.
Como estamos vendo, a filosofia nasceu de um esforço metafísico, tentando traduzir o real, dissecá-lo e tirar dele nossas interpretações. Lembrando que toda a Metafísica seguiu sozinha, carregando a filosofia ou se confundindo com ela, por um bom tempo. E ainda hoje ela constitui-se o alicerce fundamental da razão filosófica. A cética ciência não atribuiu em nada de interessante, no tocante a ferramentas interpretativas a metafísica; muito pelo contrario, é a metafísica que busca questionar o papel desta, e de suas descobertas, mostrando que a técnica é as vezes ilusória. Igual são nossas noções de realidade matemática ou de física.
Dos filósofos gregos, já citados acima, passando pelos medeivalistas – Agostinho e Tomas de Aquino - chegando até os modernos – Kant e Hume – percebemos uma tentativa de conciliar ou mesmo interpretar, supervalorizando ou minimizando, a metafísica no jogo filosófico; construindo assim uma noção da gnosiologia do saber. Hora uma fé cega, outra hora uma ciência cética.
Quando os modernos desiludiram-se com o modesto pensamento metafísico, a ciência começou a assumir o papel central da grandiosidade do conhecimento; “amadureceu” supervalorizando a técnica e desvalorizando a razão metafísica.
Nas palavras do filósofo francês Jacques Maritain a Metafísica em nossa época se traduz da seguinte forma:
Poder-se-ia pensar que a metafísica, nas épocas de impotência especulativa, brilha ao menos pela modéstia. Mas a mesma época que lhe ignora a grandeza ignora-lhe também a modéstia. Sua grandeza: ser sabedoria. Sua miséria: ser ciência humana.
Todavia nos dias atuais essa miséria tem sido questionada, tanto a Ciência, quanto a Filosofia, buscam uma reconciliação – basta lembrarmos da física quântica – A pobre ciência esta tão perto do conhecimento e tão longe da sabedoria. É isso que os cientistas vêm percebendo – ou não; que sem metafísica a ciência é cega, em sua técnica e surda em sua melodia. É como se aprender a tocar fosse somente o frisar de dedos sobre as cordas de um violão; desconsiderando outros fatores presentes no “saber tocar”. A ciência se quiser melodiar a música do conhecimento deve – como somente agora começa a dar sinais de que esta acontecendo – aprender que tocar, é muito mais do que somente dedos, cordas, barulho e técnica, têm que ter “Razão de ser”, trazer a música de outro mundo e dar ao som, a melodia divina, e não somente produzir barulho unilateral – como até agora tem feito.
A ciência precisa da filosofia, como a música precisa dos acordes, instrumentos e harmonias. Ambas têm que constituir um “todo” harmonioso. A primeira sozinha não conseguiu nunca entender o vazio ou o nada – nem evidenciá-lo - e a segunda solitária nunca provara suas teorias, somente à união de ambas pode trazer o conhecimento do real. Somente a Filosofia pode dar algumas respostas – mesmos que teóricas – sobre essa inatingível realidade que se constitui o “Nada”.
A Metafísica decifra o “Nada” – de onde tudo deriva - a filosofia constitui a razão – o pensar sobre; e a ciência é a técnica – o fazer-se. Todas têm que permanecer afinadas para que a sinfonia do saber possa tocar sua música universal.
Bibliografia:
Bertrand Russell. Os problemas da filosofia. Trad. Jaimir Conte. Florianópolis: 2005.
MARITAIN, Jacques. Grandeza e Miséria da Metafísica. Disponível em:
. Acesso em: 15/08/2009.
FERRATER MORA, José - Diccionario de Filosofía. 5ª ed. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1965. 2 volumes [existe uma versão portuguesa abreviada das Publicações Dom Quixote, Lisboa, 4ª ed., 1978].
TAYLOR, R. Metafísica, Rio de Janeiro: Zahar. 1969.