quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

“DEVEMOS JULGAR UM HOMEM MAIS PELAS SUAS PERGUNTAS QUE PELAS SUAS RESPOSTAS”

Voltaire

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008


O Encantado

 

Havia tempos...

 Contavam-se muitas estórias de encantamento e de sonhos, e essa é uma delas. Trabalhavam em uma fazenda um casal, muito pobre. Viviam lida do dia -a- dia, tinham vários filhos entre eles, destacava-se uma filha, deram-na o nome Catiti, nome de avó tupi; menina bonita de pele morena, cabelos lisos e negros como a noite sem luar, olhos claros e brilhantes, semblante alegre, altiva e esperta que por aquela altura, tinham seus doze anos completos, já mocinha, sempre sonhando sonhos de mulher.

Dia sim- dia -não Catiti ia ao rio lavar as roupas da família, às vezes cantarolava pelo caminho, não pela alegria da lavagem pois não gostava muito da imposição da mãe pelo serviço, outrossim, necessidade de espantar seus medos de menina moça. O rio sempre caudaloso, com grandes barras e ribanceiras a erguer-se por suas margens trançadas por raízes de todos os tamanhos e tipos a beber de suas águas. Raízes sustentavam enormes árvores, em seus galhos pássaros zuretando uns aos outros. Formando assim algazarra de cantos com o barulho das águas a correr. Seu pai havia preparado-lhe uma barra, fizera “picagem” na vegetação, abrira clareira na margem, tirou terra colocou pedra, onde o rio fazia rebojo raso, local de leito pedregoso ancorado por enormes raízes do tipo que se Catiti entrasse nas águas lhe cobririam apenas os pés e tornozelos. Fazendo sombra a isso tudo uma frondosa gameleira com enormes galhos e raízes descobertas.  Às vezes Catiti, entretida na lavagem, escutava vozes, não muitas, parecia sempre ser uma só, sopro do vento, a fazer-lhe sempre um convite.

 “Catiti...”

 “Vem comigo...”

 “Vem comigo Catiti para Emunah...”.

Desconfiada e assustada, resmungava sempre.

             Não vou de jeito nenhum... Não vou largar minha mãe e meu pai.

Vamos Catiti...

Vamos!...Eu te dou uma casa; lá você terá de tudo, que você quiser, comida, roupas, jóias. Não vai precisar trabalhar nunca Catiti.

Com muito custo à voz foi convencendo Catiti a aceitar seu convite. Porém havia um entrave, disse a voz:

Oh! Catiti... Feche os olhos, você não poderá ver o caminho, não pode ver nada; até chegarmos lá. 

Dizendo isso a voz some, e um silêncio cortante envolve o lugar, aparecendo repentinamente um pássaro voando em sua direção, parando acima dela agarrou-a e a levou. Seus olhos, mesmo que querendo não permaneceram abertos, foram se fechando, um profundo sono abateu sobre ela, ficando na lembrança somente um fio de luz, intangível a transpassar suas retinas, adormeceu.  

Os pais desesperados, com o sumiço de Catiti, saíram todos a procurar nos vizinhos ou por onde houvesse sinais dela ou de quem a visse.     

O pássaro sobrevoando uma enorme casa, foi logo dando sinais de pouso. Catiti quase lúcida, já passando o estágio de dormência acordara, via a cena. Era uma velha casa, com enormes varandas a circundar, dava a impressão que lá muito ninguém a habitava, algumas partes já estavam em ruínas.  A grande ave a deixou em uma enorme entrada, por instantes  esquecera que queria, observar o pássaro, não o vira direito. Deixou pra lá, estava assustada com a casa, “devia ser muito bonita”, pensou Catiti.  Mesmo velha via que se era bem feita, com colunas de aroeiras, bem torneadas, grandes e fortes já apodrecidas pelo tempo. Um enorme assoalho era seu piso. Algumas árvores cresceram bem perto das paredes rachando-as  danificando suas estruturas,  janelas eram muitas, todas pareciam estar abertas a um bom tempo. Catiti não fizera de rogada, foi logo entrando pelos portais cheios de detalhes, estava curiosa com que encontraria dentro. Espanto, essa era Catiti ao ver na sala o que a esperava.

Tinha de tudo enquanto pudera imaginar em sua cabeça de criança moça; diversão, comida, beleza em uma enorme mesa, nem parecia ser aquela tapera que se via do lado de fora.  Cortinas enfeitando as janelas e paredes, móveis nunca vistos por ela, tapetes a ofuscar intenso brilho do assoalho, marcado por seus pés descalços.  Caminhou para uma anti-sala, nela estava uma grande mesa com doces, bolos, biscoitos, assados e pratos que nunca vira ou ouvira falar.  Uma cadeira solitária ao lado com um vestido de cor branca como flor de cafezal novinho, ainda cheirando a entretela, com enormes rendas e bordados a cair pela saia a esperava; aos pés desta cadeira, um lindo sapatinho enfeitado por uma rosa. No meio da mesa um castiçal de três velas.

A voz a falar a ela mansamente, dizendo:

Entre Catiti, observe e me diga se esta tudo a seu gosto?  Pergunta a voz.

Coma e brinque o quanto quiser, tudo isso é pra você.  Troque suas roupas, vista esse vestido branco sobre a cadeira, a noite vem chegando e esta frio, hoje a festa e sua. A festa de uma só.

Você não está aqui? Onde você está? Apareça. Não ficará comigo? Tenho medo de ficar sozinha.

Catiti interrompendo repentinamente a voz.

Solidão Catiti, coisa que lá muito me acompanha, será também sua melhor amiga de hoje em diante; entretanto te darei uma companhia pra conversar, todos os dias uma ave vira te visitar mas será somente durante o dia, durante a noite estará sozinha.   O pássaro será seu amigo, tudo que contar a ele estará dizendo a mim. Não precisa ficar com medo, nada lhe acontecerá, não lhe farei mal algum, te observo há tempos.  Não se preocupe, não acontecerá nada contigo, eu te amo minha menina.  Deixarei o tempo fazer sua parte. Você só me verá quando for crescida enquanto isso, aguardo a sua decisão de aceitar meu convite de casamento que faço agora. Esta casa é um mundo mágico onde eu sou o senhor. O tempo pra você tem pressa e importância, já para mim, de nada adianta. Dentro destas paredes todos seus sonhos e desejos se realizarão basta pedir. Você não está presa pode ir quando quiseres. Quanto a mim, carrego uma maldição, por isso não posso te ver. Pronto, já lhe disse o que posso com o tempo descobrirás.

Dizendo assim, a voz sumiu, Catiti ficou sozinha, assustada com tudo aquilo,  em um mundo desconhecido, sentia vontade de chorar, seus olhos lagrimejados, piscavam como faróis acessos buscando clarear a noite.

Casamento ! Mas ... Não disse nada à voz, não sabia o nome dela, apenas imaginava que fosse um rapaz muito bonito, pensando assim se acalmava. Comeu, brincou, enquanto o tempo passava.

Talvez ela possa me dizer que lugar é esse, ou mesmo, de quem é essa voz. Pensou ela já levantando em direção a ave. Era uma bonita ave, nunca tinha visto ave igual, parecia uma arará, tinha grandes asas e bico apontando para baixo, asas de cor cinza, tão grandes que quando abrira a envergadura tinha mais de metro, suas garras eram afiadas; Catiti mesmo sem entender de aves, logo vira que era animal de caça, sobre sua cabeça um penacho azul tornava a ave imponente. Aproximou-se dela, quis tocá-la, desistiu ficou assustada, o pássaro era muito imponente. Então perguntou.

Como vim para Cá?

Eu lhe trouxe Catiti. Retorquiu o pássaro.

Dizendo isso Catiti deu um pulo pra traz, não esperava tão espontânea resposta.

Recompôs reiterando logo.

Como ? Sou grande, você é ave pequena, não conseguiria me trazer.

Está em local mágico Catiti, o Emunah, mundo onde as coisas não são como são. Onde o nunca e o agora caminham de mãos dadas, onde o grande e o pequeno não fazem diferença. Eu sou desse mundo de sonhos. A lógica do teu mundo não reina aqui. Aqui o real e o ilusório não são contraditórios, pelo contrário, complementam-se.  As águas que lavastes tuas roupas, nascem no meu mundo, por isso são águas mágicas, quando você nelas entrou ligou-se a esse mundo também.

Mas como ? Se nada de diferente eu via no rio.

Isso porque as águas do zuí-uiná são encantadas mas não estão ativas, só ativaram perante a presença de alguém ou de algo que pertencem a esse mundo, pois no correr descente do rio suas águas vai se misturaram com outras, não mágicas, perdendo-se pelo seu mundo, daí nunca mais conseguem voltar, sempre tentam, indo e vindo ao céu, mas a magia diluiu-se ao real, isso a destrói totalmente impossibilitando a volta. É somente quando se aproximam de algo ou de alguém de Emunah que retomam seu brilho e poder ansiando voltar ao sonho. E sabia Catiti? Um dos poderes destas águas do meu mundo é diminuir ou aumentar o tamanho. Daí você imagina o que houve.

A conversa foi acontecendo e a tarde caindo, quando deram por conta, já estava anoitecendo. Catiti curiosa pra saber cada vez mais entretanto, o pássaro a interrompe bruscamente.

Vou indo Catiti, já é quase noite, amanhã voltarei. 

Ainda falando, abre suas elegantes asas, e sai voando em direção a porta que estava aberta, impossibilitando Catiti despedir-se.

A noite cai, Catiti sem saber o que fazer, com medo e sozinha, estava cansada demais pra reclamar, procurou um quarto e logo encontrou um, como sempre sonhou, cama enorme e  uma infinita colcha de renda branca cobrindo-a, estava tão cansada que saltou sobre ela e adormeceu, sem se dar conta ainda do que estava acontecendo.

Os dias foram passando e passando... Catiti se acostumou, tornara-se amiga de todos no mundo encantado, cuidando de todos que ali viviam, animais domésticos ou não, às vezes perguntava alguma coisinha a mais ao pássaro e ele sempre respondia.  A Voz sempre presente, contando-lhe coisas do mundo real.

Seu pai e sua mãe, estão bem, às vezes um fica doente daí outro melhora, Seu irmão... Ah! Sua irmã está de namorado vai casar...

E os anos vieram, Catiti se tornara uma linda moça, todos no mundo encantado já a conheciam. Descobrira toda história, a voz era um jovem, cujo nome era Rudá Yamí Ibiajara,  herdeiro do mundo encantado que fora expulso por uma maldição. Descobrira que Durante a noite, ele não podia ficar no mundo mágico, e que sua forma física, era outra naquele lugar, durante o dia ele era Cauré, o pássaro, com quem ela conversava.   Mais a noite tinha que voltar para o mundo real, e nesse mundo tornava se homem comum.

 

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A noite caíra rápido, ao seu lado, a presença de Catiti se fazia em coisas que a ela pertencia, um vestido, um sapato, pentes; lembravam a doce beleza da linda moça que se tornara aquela, antes, assustada menina. Tudo sonhos, a realidade tomara conta de sua alma, não restava nele nada do mundo que construíra para os dois. Um suspiro de cansaço saída da cena. Por que as coisas para ele sempre tinham de ser assim?  Rudá caminhava pela casa, a pensar sobre sua vida de agora em diante, construiria novos caminhos, afinal ele fora um dia Rudá Yamí, o grande, mesmo depois de tudo não ficaria sozinho.

                



Texto: Antonio Henrique
Ilustração: Santiago Régis http://santiagoregis.blogspot.com/
Projeto organizado para o curso, Artes Plásticas da Universidade Federal de Goiás

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