quinta-feira, 30 de julho de 2009

Lagoa


A lagoa é mansa
suja de água limpa circular
antes seu contorno me saciava
hoje me sufoca
queria saber pescar
ter canoa
ser ponte
planar sobre sua lâmina
ultrapassar seus limites
quiçá evaporar.
mas hoje somente me afundo
densa que estou.
oxalá eu me tornasse leve
para escorrer de você
uma gota que fosse
como nevoa esvaizante
virar nuvem
e depois chover
encher outros rios,lagos e mares
para talvez um dia voltar
suave
minada e filtrada
assim saudosa de seus ângulos
fazer-se sua novamente
sutilmente
diferente.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Um Beijo...




Um beijo era tudo o que pretendia - não na boca; talvez na face - estando enfrente ao seu objeto de desejo; uma boca de carne de pêssego, com respirado ofegante, e um cheiro de campo florido, que nunca sentira antes. "Aaah! A pele." Pele ela não tinha; parecia veludo do mais puro grau. Cabelos negros como a densa escuridão. Um olhar no fundo do mar de olhos verdes, dava a ele vontade de nadar em uma noite quente e iluminada pela presença da lua, tendo como companhias esparsas estrelas a testemunhar homérica aventura. O onírico de um rosto, preso em corpo de princesa, o atraia como mosca puxada pela luz. Ela sentia um calor nunca sentido, um fogo interno a consumir-lhe as entranhas e indo ter com suas partes baixas conversas intimas, velado pelo receio e a insegurança de um "não! Não posso. Não! Não devo..." Tudo paulatinamente perdendo importância. O Deslizar de sua mão penetrante, suada e quente, pelo rosto do amado, causava-lhe uma sensação maravilhosa de calafrios na espinha. Ela queria algo, impossível á seus dezesseis anos até então. Sua boca seca pedia água que jorrava na fonte dos lábios enfrente a seus olhos. Ele desejava-a e tremia como nunca, com a cabeça a dizer-lhe ao corpo de sua masculinidade e este procurando conter algo a mais que subia. “Macho não treme!” era o fluido passando por sua cabeça, dando ordens ás pernas para se manterem firmes. Foi então que tudo aconteceu. Ela não suportando mais de sede, pulou logo na fonte, extraindo dela baldes de beijos intermináveis, sedenta que estava; pondo um fim em falas sem importância. Ele derrotado momentaneamente, foi se acalmando e relaxando, entregando e aceitando o fato de não ter tido a coragem primeiro. O roçar de algo que saia de suas bocas passando lentamente pelos pescoços e terminando invadindo ouvidos desavisados arrepiavam-lhe as almas. Por trais dos muitos beijos perderam-se: cabeças, cabelos, roupas, corpos e juízos. Os dois tornaram-se um; se misturam numa dança prazerosa e frenética de lentos movimentos, cujos bailarinos, que nunca haviam dançado, entregaram-se ao ritmo alucinante dos prazeres e gemidos. Terminado a música, sobraram corpos suados, roupas abertas e um relaxar supremo contrapondo a uma tonelada na consciência pela loucura momentânea. “Meu Deus! O que fizemos.” Embalava o recompor rápido de poucas roupas,deixando o tempo falar por si. Com um, saindo pela tangente escura de uma noite; e a outra, procurando uma porta aberta, já carregando uma lembrança física da aventura. Oooh! Sofrimento inútil. Tudo estaria correto se não fosse o fato de serem irmãos. Por diante silêncio, apenas silêncio.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Simplesmente Mercedes ...

Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me dois olhos que, quando os abro
perfeitamente distingo o preto do branco
e no alto céu, o seu fundo estrelado
e nas multidões, o homem que eu amo.
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Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o ouvido que, em toda a amplitude,
grava, noite e dia, grilos e canários
martelos, turbinas, latidos, chuviscos
e a voz tão terna do meu bem amado.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o som e o abecedário
e, com ele, as palavras com que penso e falo
mãe, amigo, irmão e luz iluminando
a rota da alma de quem estou amando.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me a marcha dos meus pés cansados
com eles andei por cidades e charcos,
praias e desertos, montanhas e planícies
pela tua casa, tua rua e teu pátio.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o coração que todo se agita
quando vejo o fruto do cérebro humano,
quando vejo o bem tão longe do mal,
quando vejo no fundo do teus olhos claros.
.
Obrigado à vida que me tem dado tanto
deu-me o riso e deu-me o pranto
assim eu distingo a felicidade da tristeza,
os dois materiais de que é feito o meu canto
e o canto de todos, que é o meu próprio canto
.
Obrigado à Vida
Obrigado à Vida
Obrigado à Vida
Obrigado à Vida
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de Violeta Parra
( Trad. de F.L. )
.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

SEGURANÇA

Ufa! Cheguei; que sufoco... quase me afoguei
nessas águas em que pensei saber nadar.
Mas agora estou a salvo.
Sentado no barranco observo o rebojo desse rio.
Mas a terra esta rachada, não há raízes e segurança se vai pelas fendas e brechas
desse espaço que separa eu de mim.

Ah! Não. Vou cair novamente...?!

Tenho medo de me afogar.
Mas essa terra que cá me encontro, não é segura.
Esse barranco esta com profundas fendas e uma hora ou outra vai abrir.
Lançando tudo novamente ás novas águas.

E se eu não sobreviver...?

terça-feira, 7 de julho de 2009

Um pouco de mim…


…ou um pouco de nós?


“Sonhos são aquilo que nos fazem diferentes ou semelhantes”

sexta-feira, 3 de julho de 2009

POLUCA


Meninada gritando pelo terreiro, correndo salvando uns aos outros, tudo fazendo parte de uma das brincadeiras mais desejada do dia - salve cadeia - entre eles na maioria de cor negra, havia uma “branquela”. Todas as crianças a chamavam de Tia. Ela era a mais nova de uma geração de 13 irmãos, dos quais 12 eram filhos legítimos de mãe Preta; somente ela era “contrabandiada”. Era filha das aventuras de Chico, marido de mãe Preta, mas criada por ela como filha legitima. Afinal “ela não tem culpa das safadezas do Chico!”. Dizia sempre Preta quando questionada sobre a “branquela”. Foi trazida bebê pelos braços do pai. Este quando chegou, com a menina nas mãos, perguntou quem a queria. Preta nada disse. Dos filhos somente a mais velha, que era beata, tirou-a dos braços do pai e com ela ficou. “Oh...! Minha filha, seu pai vai arrumar mais uns 500 filho pro ce cria!” Preta a queria, mais ficava com receio, afinal já criara 12 filhos dele. Naquela altura marido e mulher já não viviam mais juntos, ou melhor, não dormiam juntos, pois era ele quem mandava em tudo; com anuência de Preta é claro.
De filha recusada a menina passou a ser criada com todo esmero e mimo por Preta; marcada pela inveja e raiva dos irmãos. “Foi achada no mato!” Dizia sempre Ganga, o caçula antes dela, somente para vê-la chorar. A menina tinha um sonho. “Ser preta!” Assim como a mãe que ela conhecia. Vivia ali a perguntar. “Por que somente ela era branca se todo mundo era preto?” Chorava sempre pelos cantos o sonho em ser negra acalentada pela mãe atenciosa que lhe falava: “Minha filha! Ganga também era branco, daí com o tempo, ele escureceu e ficou preto. Cê vai ficar preta também sô!” As palavras da mãe ecoava pelos ouvidos da menina como música fomentando seu sonho impossível. Contentando-a e impedindo os contínuos choros pelo fato.
Todas as crianças eram filhas dos irmãos da menina. Alguns até mais velhos que a mesma, entretanto, todos lhe tomavam benção. Tudo por obrigação, porque respeito era outra história. Eram crianças e entre estas, essa hierarquia familiar se perdeu.
A fazenda era grande, plantavam-se cana - de - açúcar e dela retiravam o sustento da família; produzindo pinga e rapadura. Levantavam cedo - madrugada - para pegar na lida. A meninada - sempre sonolenta - cabia a lavagem dos tachos de cobre, nas fornalhas recém acesas, tomar garapa, comer moça branca e amanhecer dormindo sobre o bagaço de cana, pertinho do calor das fornalhas. Ao acordar, um cheiro doce de caldo de cana misturava-se ao azedo do bagaço do dia anterior. O sol trazia junto com ele, enxames de abelhas, zumbindo em seus ouvidos acordando assim a meninada que logo saiam a “zoretar” pelo terreiro. Tocando e fechando gado para ordenha. Para então a pouco tomar leite-com-café adoçado por açúcar mascavo.
O engenho não parava. De madrugada moia-se a cana; impulsionado pelo canarinho e sabiá, dois grandes bois amarelos, que emprestavam suas forças as engrenagens do engenho fazendo tudo girar. De manhazinha, depois que o sol nascia, apurava-se o melado (com a espumadeira), colocando-o, antes de endurecer, nas formas; debaixo destas, jogavam-se folhas verdes de bananeira. “É pra não prega!” Explicava o velho “Seo” Lucas, um negro, cortador de cana da fazenda. Então, se cobria todas as formas, com argila fresca - tirada de um brejo ali próximo - justificando-se que aquele ato clareava o açúcar.
Na hora do almoço era aquela folia. Meninada para almoçar; no prato feijão preto, arroz branco, molho de frango tingido por açafrão e fatias de queijo fresco. Prato cheio, barriga cheia. Após o almoço; doce de leite ou rapadura; “pra tira o sal da boca.” Falava Mãe Preta.
Uma hora ou outra a meninada brigava. As vezes por coisa comum, outras por deixar alguém fora da brincadeira. Quando a “enrusga” era com a menina o choro vinha logo. “Vô conta tudo pra mãe!” então corria para a barra da saia de mãe Preta. “O que foi? Vai brinca!” Não resolvia. Ficava ali pelos cantos. “Ta comendo barata né !?”Questionava Ganga. Apenas para aumentar a mânha. Então da sala emanava um resmungo grotesco, grosso e meio rouco. “Da essa menina pra mim; Dona Preta! Chô leva ela pra casa.” Arrancando da cintura um facão, passando-o pelo assoalho e “abugalhando” os olhos cheios de lágrimas da menina. Era o “Seo” Lucas dando um fim a “choro de menina manhosa”. Por diante engolia-se o choro. O medo estava presente. “Home feio!” ela não ousava chorar mais perto dele. Secava as lágrimas na ponta da saia do vestido, engolia o soluço e saia.
Durante a tarde de sol, depois da chuva. Um cheiro de terra molhada misturava-se ao perfume da florada dos pés de manga no mês de agosto. O terreiro chamava a meninada para voltar logo a correr. “Pega...pega... menino!” “Salve cadeia... Corre!” “Pic...! Um, dois, três. Ta prezo!” Durante as corridas, algumas vezes, um ou outro, caia - ralando tudo - o choro nascia inevitável. Dai Tia aparecia dizendo. “Minino; cala boca! Chora não! Porque se não dá pro luca”. Se oce chora, eles dão ce poluca! E assim ficou o nome dela a partir de então. Todos esqueceram o “branquela”; passando-a a chamá-la de “Poluca”. Hoje, meninos não há mais. Irmãos são poucos os que Deus ainda não levou. Restando a ela filhos, netos e uma vida de viúva. Mas uma coisa não aconteceu; e saudosa ela, ainda hoje, espera a promessa ser cumprida. Pois continua sendo branca.

Musicas