Pedrinho era menino pobre que aspirava ser aviador. Ficava sempre a observar os vôos dos pássaros, ou mesmo, bastava ser imagem de avião que lá estava Pedrinho, olhando e imaginando, divagando em plena luz do dia. Às vezes, cometia algumas insanidades. Chegava até a rasgar as páginas dos livros, levando consigo as imagens de seus anseios.
Nas paredes velhas de um quarto humilde, Pedrinho colava aviões escondendo a dureza do dia-a-dia. Naquele quarto, onde quer que houvesse um espaço, tampou com seus sonhos de todos os tamanhos e tipos e cores. Sobre a cabeceira da cama, havia um Boing, encontrado no lixo, aos pedaços, em uma rua qualquer; o menino juntou, colou e agrupou como pode, ligando as peças, usando para isso, velhos jornais misturados a um grude de cola caseira. Pronto! Lá estava Cacareco, a mais linda nave do mundo. Escultura real da imaginação que nem mesmo um Michelangelo ou um Rodan fariam melhor aos olhos da inocência.
A vida nem sempre dava conta das dificuldades que lhe eram muitas. Entretanto, a ideia nunca se acalentava, apenas diminuía por efeito dos dias. Deitado, naquilo que ousava chamar de cama, uma espécie de sacos sobrepostos, coberta por um americano ralo com desenhos de aviões nas nuvens, patrocinados pela mãe em dia de aniversário, sustentado por uma grade com cabeceira, Pedrinho imaginava-se piloto. Aconchegado como em um colo de mãe, em dia frio, preso às asas de seu desejo, esquecia que estava crescendo, tornava-se um Von Richthofen – O Barão Vermelho - aviador nas asas da imaginação, pairando com o Cacareco em idas e vindas sobre si. Queria liberdade, cair pleno em seus vôos, buscando esperança em algo que parecia real – seu avião.
O tempo, injusto como sempre, levou para longe as fantasias de menino. A criança de ontem, homem tornou-se. Os aviões, ele deixou pra trás. Afinal, homem que é homem vive com os pés no chão, sonhando com a mão no bolso, existindo preso em sua realidade. Nem o belo Cacareco sobreviveu aos anos. Um dia, a cola soltou despedaçando as peças, impossibilitando colar novamente, devido ao estado de desgaste que as mesmas se encontravam. De tudo isso, restaram apenas lembranças despedaçadas da criança, que um dia virou adulto e deixou de voar.
Texto: Antonio Henrique
Ilustração: Santiago Régis http://santiagoregis.blogspot.com/
Projeto organizado para o curso, Artes Plásticas da Universidade Federal de Goiás
2 comentários:
Melhor parceria nao há \o/
Mas não perdeu o mais importante: a liberdade de pensamento.
Gostei: do conto e da ilustração! :)
E estou voltando, lentamente...
Beijinhos
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