sexta-feira, 23 de abril de 2010

Um Vazio


Um vazio cheio
de descalço calçada.
Um cerrado ralo
de floresta encorpada.

Esparso de aperto
das pedras batida.
No terreiro goiano
socada espremida.

Rezada vida
quem ti louva?

Rosário de lagrimas
de gente sofrida!
Sólida ilusão.
Esfarela no vento
sertanejo astronauta
morador da lua.
 
Vai viajar!

Mas quando for
tire os sapatos.
busca a palavra
De certezas  dúbia.

Que ti cerca?
Tristeza, alegria
ou dúvida que agonia?

Fala pra mim.

Grade de vidro?
joga pedra
quebrante.
Cegado tu estás
ofegante.
De olhos teimosos e asas de ferro.

Veja o dia!
Já nasceu.


Grilo na vida?
Depois do "0" vem o "1".
Matemática atordoante.
Isto ti seduz
né?
Ser obstinante.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A Perereca

Pelo trieiro...
Sentia-se presa ao passado. No turbilhão que se formou, cada elo deste girava trazendo pergunta ou justificativa para tudo. Nas dúvidas, optou por continuar todo planejado. Nas perguntas, ela não conseguia as respostas que a saciava. Disto surgia mais e mais em uma corrente sem fim. E pensava. Como será a princesa? Será que estes brotos curam mesmo? Como era o nome do reino? Posso confiar naquela danada da gameleira? Esquecendo tão rápido quanto lembrara.

O longo caminhar desembocou em uma vereda cheia de buritis. Donde uma mina jorrava um imenso olho d`água lançando litros do liquido limpo e fresco. Na mente da jovem moça, aparece a sede, provocada pelo sol, que já nascera quente. Procura uma maneira de matar o que a incomodava por ali mesmo. Logo encontra uma enorme moita de taioba. Apanha uma folha verde e grande; dobra fazendo um copo luzente e brilhoso. Essa técnica apreendera de suas andanças com o pai pelas matas. Ajoelha-se. Enquanto mergulha o verde copo no poço que se formou entorno do olho pujante de água. Dele retira os primeiros goles refrescando-se, repetindo outras vezes, dando fim a secura.

Aí! Não beba dessa água garota. Cai fora. Dizia a voz.

A jovem do vestido rasgado, ignorando o aviso bebia, bebia e bebia. E bebendo olhou seu reflexo nágua. No mesmo instante, começou a viajar. Enxergando os momentos bons. Ou os ruins que buscava esquecer. Tão real quanto ela havia imaginado. Tão sensível que a fazia rir e chorar. Não conteve o desejo de tocar. Levou a mão. Foi esticando os dedos tentando apalpar. Queria sentir. Abraçar suas visões. Mas todas as coisas se evaporavam na superfície da água. Na tempestade de sentimentos que formou o prazer levava a dor, em um circulo, de mãos dadas, debochava da pobre razão. Foi então que se deitou abeira do poço. Ficando imóvel. Hipnotizada pelas imagens. Perdeu-se. Não havia nela vontade de se levantar. E se tivesse; a força lhe faltava. Estava vencida.

Garota. Ta me ouvindo?

Estou... Aqui esta tão bom...

Caraça! Véi. Tu tá na moió noiá! Escuta aqui ôooo garota! Isso ai é o maió bafo de cobra. Sai daí. Ta ouvindo? Nada disto é real. Cai fora. Insistia a voz.

Deixa eu ficar só um pouquinho mãe. Quero brincar mais.

Que mãe! Que nada. Olha o seu tamanho. Não sei se um mulherão desse brinca. Tu tá é doidona. Garota tu é a maió pisada. Aí. Vô! Tê que apela contigo!

Catiti imaginava-se cavalgando em um dia ensolarado por uma planície aberta. Alguém planava a sua frente em um cavalo branco, de crina imponente. Que balançava ao vento como seda. As partes pratas da ariata do cavaleiro ofuscavam o olhar de qualquer ângulo. Catiti sobre uma égua apalusa. Corria em pelo. Deslizando com o vento agarrada a clina. Seus cabelos soltos eram acariciados pelo ar.

Pensara nos desejos. Depois já não pensava nada. Apenas gozava o prazer do momento. Em seu intimo torcia, com todas as forças. Para ser Rudá. O cavaleiro enigmático parou. O animal que o trazia bufava suado. Escorrendo saliva que espumara o contorno da boca, amaciando-lhe o freio entre os dentes. Catiti parara passiva. Sentido apenas o respirar ofegante de sua égua. Um salto tira-o da sela. Libertando o peso das costas de quem o trazia. A rédea deixa solta. Levado o animal decidir o que fazer a partir de então. Apeia. Quero lhe ver direito. Ouvindo essa voz Catiti vai ao chão, tão rápido quanto pode. Abraçando a saudade de tudo que esperava. Tentando ver nele quem a cobiça queria.

Filha teu lugar não é aqui. E com estas palavras a jovem percebe de quem se tratava. Você tem que cumprir sua jornada. Mas! Pai. Eu queria voltar pra casa com você. Diz Catiti, decepcionada ansiando por um abraço de “sim”. Porém, o abraço não veio. Ao invés dele, uma mão fria toca-lhe o rosto. E acariciando-lhe o ego diz. Seu lugar não é aqui, minha menina. Vá cumpri sua sina.

Antes que Catiti tentasse contradizer-lhe tudo evaporou. No lugar do toque da mão permaneceu um frio pregado a face que lhe retomou a consciência. Tão logo quanto pode, abril os olhos; dando de cara com aquilo. Um grito de horror provoca-lhe impulso de passar a mão pelo rosto ao mesmo tempo em que faz a dança do “sai pra lá”. Atirando longe o monstro que a atacava.

Credo! Sai pra lá coisa feia.

Aí! Acho que mereço um obrigado em.... Diz o bicho.

Ainda assustada Catiti retruca.

Éca! Você é uma perereca.

Você é uma pelelecaaaaa.... Não tem nada melhor pra falar não? Claro que sou perereca. O que esperava? Um elefante. Posso ser perereca.....Eu seiiii. Aí! Mais sou espada viu. Me chamo Porang. Ao seu dispor. Não vai me agradecer? Ti livrei da maio roubada.

A conversa começou deste ato. Catiti notou que estava em frente a um ser amigo, mesmo este sendo tão estranho a ela e desgostando da ideia. Deu trela a conversa, que no início se mostrou agradável e engraçada.

Perereca macho? Essa é nova pra mim. É engraçado.

Ai! Qual é garota. Você podia ao menos me agradecer.

Claro! Desculpa. Obrigado Seo Porang....

Assim é melhor! Garota tu tava numa fria. Ainda bem que eu apareci e ti tirei de lá. Quase foi engolida pelo poço das lembranças. Este poço já matou muitos sabia? Que ta fazendo por aqui?

To meio perdida, quero ir para o Reino dos Namby. Não sei onde é. E nem como chegar lá.

Sinistro! Aí. Posso ir com você? Eu sei como chegar lá. Posso... ?Posso?

Enquanto tenta convencer a moça, pulava de folhe em folha. Numa intensidade tamanha que Catiti gritou.

Para. Fique quieto enquanto esta falando. Pode. Mas...

Mas o que?

Você é uma perereca minúscula, verde e que usa gravata. Como vai saber chegar lá?

Hei! Sai dessa. Aí. Pior é você, toda rasgada e suja. Acha que o rei vai dar moral pra você?

Vai sim. Eu tenho uma coisa que ele quer.

Há. É? Então. Deixa eu ir. Eu me escondo. Fica sabendo que sou excelente guia. E um ótimo guarda costa. Viu!

Ha, ha!! Por que eu precisaria de um guarda costa?

Sei lá. Nunca se sabe né? Nesse mundo louco de hoje em dia. Deixa eu ir vai. Além do mais você não sabe onde fica Namby. Certo?

Certo. Espertinho.

Daí tu precisa de mim. Correto.

É! Nisto você tem razão. Esta bem. Você vai. Mas vê se não me arruma encrenca.

Demoro! Ai. Eu serei seu amuleto da sorte. Tu vai ver.

Assim espero.

Por diante o papo se desprendeu. Porang se mostrou um falador inveterado. Falava sobre tudo. Tanto que Catiti ficou com dor de cabeça por tantas perguntas. Primeiro ele queria saber se podia subir no ombro de Catiti. Depois de instalado, por sinal bem próximo ao ouvido da moça, ele soltava no mínimo umas oitocentas palavras por minuto. Foram tantas que a moça o interrompeu.

Hei! Devagar. Fale menos. Estou ficando tonta. Me dê a chance de pelo menos tentar responder algumas de suas perguntas.

Catiti respondeu algumas, outras não. O importante é que foi soltando as histórias aos poucos. Esvaziando uma mente que estava cheia; precisando de espaço para guardar novas coisas.

Ta bom. Diz ai garota. Por que tu ta querendo ir no Reino dos Namby?

Bom pra início de conversa meu nome não é garota. Me chamo Catiti.

Manero! Seu nome. Aí!

Segundo, eu to indo fazer uma coisa.

Que trabulho é esse, que tu ta indo fazer?

Pra uma perereca você é bem curioso Seo Porang!

Faz parte. Eu apenas to tentado ser agradável. Atencioso e gentil. Um acompanhante charmoso e simpático. Inteiramente submisso. Ao seu dispor; eu diria.

Ahmmm...Sei!! De tanto ser agradável e submisso o inhambu ficou rabicó. Sabia?

Rilex gata! Os inhambus são todos doidos. Bando de desesperados. Correndo de um lado pro outro. Nós sapos é que somos a espécie mais apta. Centrados. Damos nossos pulos por necessidade e não por esperteza.

Sapo? Quem disse que você é um sapo? Você é uma perereca.

Eu sei! Mas pertenço a espécie. Lembra? Diz ai. O que tu procurando lá?

Estou indo levar um remédio.

Pra princesa? Aí. Dizem que ela ta nas ultimas. Né vei? Sinistro.

Então... Estou indo levar esses brotos para dar a ela.

Enquanto fala, leva a mão no bolso, retirando dele os brotos já murchos.

Tu não ta pensando em curar a princesa com esses brotinhos murchos. Ta?

Claro! São brotos mágicos. Não é o que parece.

É! Eu sei. Nada nesse mundo é o que parece ser. Né? Uma garota pobre e surja. Com um vestido rasgado. Trazendo brotos murchos nos bolsos, pra curar uma princesa. Quer entrar em um palácio e espera ser recebida pelo rei? Garota tu é mais loca que eu pensava. Aí! Gostei de tu.

Veja pelo lado bom, pelo menos não sou verde.

É! Ninguém é perfeito.

Engraçadinho...

Com a conversa, a distancia diminuiu-se dissolvendo no tempo. Com Porang, Catiti avistou os portões da entrada do Reino.

Texto de Antonio Henrique

Musicas