terça-feira, 28 de setembro de 2010

EXISTENCIA E TEMPO


A vida só é curta se a coloco no patíbulo do tempo. As suas possibilidades só são limitadas se me ponho a contar o número de palavras ou livros que a morte me dará ainda tempo de acender. Mas porque me hei-de eu pôr a contar? No fundo, o tempo de nada serve, inútil instrumento de medida que só regista o que a vida já me trouxe. Na verdade nada do que é importante e acontece e me faz vivo, tem a ver com o tempo. O encontro com um ser amado, uma carícia na pele, a ajuda no momento crítico, a voz solta de uma criança, o frio gume da beleza -nada disso tem horas e minutos. Tudo se passa como se não houvesse tempo. Que importa se a beleza é minha durante um segundo ou por cem anos? A felicidade não só se situa à margem do tempo, como nega toda a relação deste com a vida.
Assim, num só movimento, liberto os ombros do peso de dois fardos: o tempo e as tarefas que teimam em me exigir. Nem a vida é mensurável, nem viver é uma tarefa. O salto do cabrito ou o nascer do sol não são tarefas. Como há-de sê-lo a vida humana - força surda a crescer na dor da perfeição? E o que é perfeito não desempenha tarefas. O que é perfeito labora em estado de repouso. É absurdo pretender que a função do mar seja exibir armadas e golfinhos. Evidentemente que o faz - mas preservando toda a sua liberdade. Que outra tarefa a do homem, senão viver? Faz máquinas? Escreve livros? Faça o que fizer, poderia muito bem fazer outra coisa. Não é isso que importa. Importa é saber-se um fim autónomo, que repousa em si mesmo como uma pedra sobre a areia.


Stig Dagerman (Suécia, 1923/1954), A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer, Fenda, Lx, 1989, pag. 20 e 21

Tradução do sueco de Paula Castro e João Daniel Ribeiro

TIRADA DE : http://filosofialogos.blogspot.com/2009/02/existencia-no-tempo.html

3 comentários:

Cássia disse...

Eis que hoje, depois de mais de um ano ausente de meu blog, resolvo publicar algo, e revejo seu comentário. Venho parar aqui no seu blog, que sinceramente não me recordo se um dia já segui. Mas o fato é: bom reencontrá-lo, conterrâneo. Recordo-me também que me escreveu certa vez, propondo-me certa parceria literária. Por acaso eu o respondi? Decerto que não, pois desde que passei a gerar meu filho, minha vida se constituiu numa tal sucessão de atropelos, que deixei muita coisa por fazer, muitas palavras por dizer e escrever. E se as digo agora, um pouco ao menos, é porque circunstâncias alheias a minha vontade me proporcionaram algum tempo livre. Bora aproveitá-lo! Desta vez volto e leio mais.

Cássia disse...

Claro. Escreva-me para lcassiaf@gmail.com

MaC disse...

A falta de tempo me impossibilitou de acompanhar melhor seu Blog. Hoje o faço, numa demonstração patente que o tempo nos escraviza. Ou será que o homem com sua síndrome do tempo está a se escravizar? O tempo que se acelera, estica ou encolhe, mostrando que não é concreto, físico, palpável, e por conseguinte, não existente. No entanto, como podemos ser escravo desse ditador inexistente? Ou será que nós mesmos estamos a nos acorrentar nos grilhões que vamos moldando ao longo da nossa existência?
Isso me lembra o filme The Wall, do Roger Water e os muros que vamos construindo a nos cercar. Será o tempo mais um tijolo nesse muro?
Se tal for, a sua implosão significará no repensar da própria maneira de viver. E quem se ateve a acender o estopim?

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