domingo, 9 de janeiro de 2011

Madona Sistina de Vassíli Grossman

Madona Sistina - de Rafael [Raffaello Sanzio/1513-14 ]
 
Essa semana, entediado desse aglomerado de coisas que me cercam, resolvi encarar novas possibilidades, não que estas coisas fossem novas, na verdade a mim são bem tradicionais.  Buscava eliminar essa sensação de clausura que cerca os indivíduos quando moram em edifícios.  A mim este dito arranha céus, tão horripilantes, causa fobia. Mas deixemos esse gosto peculiar e busquemos o que interessa. 
Como estava eu dizendo, gosto do frescor de cara nova.  Gritos, aglomerados, Mcdonald, Burg king, Saraiva, adolescentes e barulho, muito barulho.  Bem, caro leitor,  já deu pra perceber do que realmente, eu gosto; nos fim de sábado a tarde ou no domingo tedioso.  Adoro perambular pelo shopping.  Gastar sola de sapato, mesmo sem por a mão no bolso. Não me importa o nome que leva a fachada, tão pouco a classe, e ou classificação,  que o mercado empõem a loja ou ao consumidor.  A mim o que interessa são pessoas. Prefiro gente, que solidão.  E gente feliz; muito embora ache que felicidade não se compra e nem se negocia, todavia, adoro pagar as prestações a ela impostas pelos ditames da modernidade. Vitrine, beleza, essas coisas me fascinam. Não! Não sou consumista. Nem aplaudo o consumir desenfreado. Pelo nemos é  a bandeira que carrego! Antes sim, "me gusta" o novo jeito de se ver a vida. Solta, despojada e acrescentaria também, descompromissada. Claro que nem todos pensam assim. E nem estou passando com o intuito de desembaraçar questões de quem deve e quem não pode.  A intenção é outra.
 Andei, li, fofoquei, tomei milk sheik do bob´s e com a sensação de um formigueiro subindo pelas pernas resolvemos entrar em uma livraria.  Neste local entre catálogos de yoga, livros de culinária ou de arte, filosofia, econômia e moda. Deparei-me com uma edição da Piauí,  dezembro de 2010, abri deslizando os olhos por seus artigos. Parando naquilo que chamava atenção e descartando os demais. Entre pagina sim , artigo não, enquanto meu sobrinho soltava planos em meus desavisados ouvidos. Eu admirava. Claro havia partes  que me eram desinteressantes. E indagações como: como alguém pode escrever isso? Ou nunca perderia meu tempo lendo isso. Flutuavam por meus neurônios.
Numa passada de pagina misturada ao piscar de olhos deparei com ela. Fitei-a. Era majestosa a Madona Sistina. Estranho que eu, um professor de arte de uma pequena cidade no interior de Goiás, nunca a tivesse contemplado. Provavelmente sim, em épocas distantes, mas naquele momento ela me chamou atenção.  Logo a vontade de folhear foi-se pelo ralo do ar condicionado.  Comecei a ler.  O texto magnífico misturou-se a beleza da obra de Rafael.  As entonações dos parágrafos, mesmo os que passavam pelo terror da guerra, era-me de um degustar levemente adocicado; quase um gole de água  gelada em um dia quente e estando o paladar, de seu degustador,  totalmente seco.  A mulher ali retratada  era nossa mãe, nossa irmã, parceira e ao mesmo tempo amante confidente.  Audaz olho em gestos de entrega.  A mãe que se entrega.  O filho que se deixa levar. O texto falava disso. As letras me puxavam aos parágrafos como imã. E estes me levaram ao final da primeira parte sem saber o que me reservava a segunda. E por assim eu fui.
Diminui o fôlego, em determinadas partes, disparei em outras. Admirando a beleza da Madona de Rafael misturada a leveza da análise de Vassíli Grossman. A história de vida do escritor impôs se nos meandres do texto.  Bem sei que muito de sua visão artística também.  No entanto, a arte  finaliza o conjunto. O observador e suas impressões, a obra e sua história. Arte simplismente. Enquanto meus olhos corriam as linhas do texto, minha mente indagava a graduação de sofrimento do vinho das videiras destes dois grandes artistas. Não consegui responder.
  O conjunto levou-me, não só a comprar a revista, como também a imaginar o quanto algumas pessoas tratam de temas universais de uma forma tão simples. Tão despojada. Rafael e Grossman retrataram o existir do humano, suas dores, seus lamentos, alegrias, belezas, fraquezas e humanidade de uma maneira cotidiana quase trivial. Não é um divino metafísico que se mostra, nas duas obras, mas sim o humano que se declara . Ambas obras se entregam ao homem;  questionando o Ser em construção, que se ramifica sobre si mesmo. O medo, o desafio, o enfrentamento, o infinito, o finito tendo por diante o futuro são interpretações humanas. Não pertencem a um deus. O artista as utiliza como via da comunicação com o pueril existir. Nas duas obras, no texto e na figura, percebemos que os deuses emprestaram muito deles aos artistas quando os fizeram.  Dando, à estes, todo oceano de sensações. Entretanto os deuses tiveram piedade, ou covardia , e   entregaram-lhes a chave, para abrir a porta, que passa um de cada vez;  levando fim a essa angustia  solitária que se faz ao existir.
 E os deuses disseram: Crie! Meus filhos. Crie!  E  é com isso que eles vivem. Até hoje.

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