Madona Sistina - de Rafael [Raffaello Sanzio/1513-14 ]
Como estava eu dizendo, gosto do frescor de cara nova. Gritos, aglomerados, Mcdonald, Burg king, Saraiva, adolescentes e barulho, muito barulho. Bem, caro leitor, já deu pra perceber do que realmente, eu gosto; nos fim de sábado a tarde ou no domingo tedioso. Adoro perambular pelo shopping. Gastar sola de sapato, mesmo sem por a mão no bolso. Não me importa o nome que leva a fachada, tão pouco a classe, e ou classificação, que o mercado empõem a loja ou ao consumidor. A mim o que interessa são pessoas. Prefiro gente, que solidão. E gente feliz; muito embora ache que felicidade não se compra e nem se negocia, todavia, adoro pagar as prestações a ela impostas pelos ditames da modernidade. Vitrine, beleza, essas coisas me fascinam. Não! Não sou consumista. Nem aplaudo o consumir desenfreado. Pelo nemos é a bandeira que carrego! Antes sim, "me gusta" o novo jeito de se ver a vida. Solta, despojada e acrescentaria também, descompromissada. Claro que nem todos pensam assim. E nem estou passando com o intuito de desembaraçar questões de quem deve e quem não pode. A intenção é outra.
Andei, li, fofoquei, tomei milk sheik do bob´s e com a sensação de um formigueiro subindo pelas pernas resolvemos entrar em uma livraria. Neste local entre catálogos de yoga, livros de culinária ou de arte, filosofia, econômia e moda. Deparei-me com uma edição da Piauí, dezembro de 2010, abri deslizando os olhos por seus artigos. Parando naquilo que chamava atenção e descartando os demais. Entre pagina sim , artigo não, enquanto meu sobrinho soltava planos em meus desavisados ouvidos. Eu admirava. Claro havia partes que me eram desinteressantes. E indagações como: como alguém pode escrever isso? Ou nunca perderia meu tempo lendo isso. Flutuavam por meus neurônios.
Numa passada de pagina misturada ao piscar de olhos deparei com ela. Fitei-a. Era majestosa a Madona Sistina. Estranho que eu, um professor de arte de uma pequena cidade no interior de Goiás, nunca a tivesse contemplado. Provavelmente sim, em épocas distantes, mas naquele momento ela me chamou atenção. Logo a vontade de folhear foi-se pelo ralo do ar condicionado. Comecei a ler. O texto magnífico misturou-se a beleza da obra de Rafael. As entonações dos parágrafos, mesmo os que passavam pelo terror da guerra, era-me de um degustar levemente adocicado; quase um gole de água gelada em um dia quente e estando o paladar, de seu degustador, totalmente seco. A mulher ali retratada era nossa mãe, nossa irmã, parceira e ao mesmo tempo amante confidente. Audaz olho em gestos de entrega. A mãe que se entrega. O filho que se deixa levar. O texto falava disso. As letras me puxavam aos parágrafos como imã. E estes me levaram ao final da primeira parte sem saber o que me reservava a segunda. E por assim eu fui.
Diminui o fôlego, em determinadas partes, disparei em outras. Admirando a beleza da Madona de Rafael misturada a leveza da análise de Vassíli Grossman. A história de vida do escritor impôs se nos meandres do texto. Bem sei que muito de sua visão artística também. No entanto, a arte finaliza o conjunto. O observador e suas impressões, a obra e sua história. Arte simplismente. Enquanto meus olhos corriam as linhas do texto, minha mente indagava a graduação de sofrimento do vinho das videiras destes dois grandes artistas. Não consegui responder.
O conjunto levou-me, não só a comprar a revista, como também a imaginar o quanto algumas pessoas tratam de temas universais de uma forma tão simples. Tão despojada. Rafael e Grossman retrataram o existir do humano, suas dores, seus lamentos, alegrias, belezas, fraquezas e humanidade de uma maneira cotidiana quase trivial. Não é um divino metafísico que se mostra, nas duas obras, mas sim o humano que se declara . Ambas obras se entregam ao homem; questionando o Ser em construção, que se ramifica sobre si mesmo. O medo, o desafio, o enfrentamento, o infinito, o finito tendo por diante o futuro são interpretações humanas. Não pertencem a um deus. O artista as utiliza como via da comunicação com o pueril existir. Nas duas obras, no texto e na figura, percebemos que os deuses emprestaram muito deles aos artistas quando os fizeram. Dando, à estes, todo oceano de sensações. Entretanto os deuses tiveram piedade, ou covardia , e entregaram-lhes a chave, para abrir a porta, que passa um de cada vez; levando fim a essa angustia solitária que se faz ao existir.
E os deuses disseram: Crie! Meus filhos. Crie! E é com isso que eles vivem. Até hoje.

2 comentários:
Ainda bem que no meio de um aglomerado de pessoas, perambulando pelo shopping, a 'Saraiva' possa proporcionar certo "cultimo"...queria eu, que todas pessoas entrassem ali pelos menos 5 min, ao invés de andar desvairadamente pelo shopping.
Também gosto deste "flanar" por aí, para livrar-me da clausura do apartamento. E folhear livros e revistas, e ter assim bons encontros com obras e textos que valem nosso tempo. Pena que isso me seja quase interdito por agora. Estou esperando,hem.
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